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Oma Mariana

Oma Mariana, minha vovó, é uma imperturbável otimista. Mãe de 10 filhos, mais um punhado de netos e bisnetos, essa senhora de memória de ouro e bençãos que protegem gerações costuma reagir às intempéries da vida com determinação e entusiasmo.

Com quase um século de aniversários comemorados, aos vinte e poucos anos já passou pela experiência de trocar de país para viver possibilidades bem distintas aqui no nosso Brasil de todos os santos. Saiu da Austria no período entre guerras para acompanhar um amor que nada teve de passageiro e que se tornou o pai de seus filhos – e para minha sorte, meu avô. Deixou com a família uma saudade do tamanho do oceano e partiu sozinha, de navio, com a cara e a coragem.

As barreiras do clima, da língua, assim como as dificuldades naturais na criação dos filhos e a labuta diária na colônia, nada disso me foi possível perceber nela como fardo. Percebia apenas o evidente: o jardim multicolorido cultivado com esmero, a polenta quentinha feita no fogão a lenha como que a dar bom-dia ao estômago guloso de afeto de vó, as musiquinhas entoadas em um dialeto regional que hoje quase se perdeu no tempo. E o tratar das galinhas, o ursinho de crochê tricotado com carinho e outros tantos mimos de bem querer. Hoje em dia, no alto de seus 97 anos, afirma que preocupa-se sim, com o dia em que a velhice chegar… Cá pra nós… chega não.

 

Mantendo e desafiando tradições, essa Oma muito querida continua dando notícia de tudo e de todos. Amante da troca de notícias por correspondência, após centenas que foram trocadas ao longo dos anos, não se faz de rogada: para visualizar fotos pede que sejam enviadas pelo computador mesmo, por que assim é mais prático e rápido. Para quem acompanhou o florescimento de tantos inventos e mudanças ao longo de um século, desde a profusão de geladeiras e televisores até a atual discussão a respeito do aquecimento global e do ecumenismo religioso, ter a “cabeça aberta” continua sendo um elemento fundamental.

Alguns segredinhos básicos ela até deixa passar: ter flexibilidade para não se intimidar frente a mudanças. Encarar os desafios como fatos cotidianos e naturais. E sobretudo, nutrir sempre muita gratidão pela vida, reconhecendo a felicidade de cada dia.

 

Na experiência dela esses conceitos tornaram-se mais do que palavras, adquirindo vivência e veracidade. Pura e simples. Em uma conversa com o irmão caçula pouco tempo atrás, descobriu que este havia parado de trabalhar na lavoura de maçãs para ficar mais com a esposa, que ficou doente e dependente de seus cuidados. E que se tornara agora seu motorista particular, levando-a pra lá e pra cá como ela desejasse. Assim como a irmã mais velha, ele também esbanja alegria, agradecendo a possibilidade de ser útil à companheira de tantos anos.

Feliz ao contar-nos essa história, minha avó completou: é muito bom realmente, pois ele acabou de renovar a carteira e aos 90 anos muita gente acaba não renovando mais.

Até poucos anos atrás a Oma era, entre outras tantas coisas, voluntária no asilo da cidade onde mora, pois a satisfazia “alegrar as velhinhas”, como nos disse certa vez.

– Mas mãe, não são todas mais novas do que você?”, questionou uma das filhas.

Depois de um tempinho de reflexão, respondeu “É mesmo… mas a cabeça… aí está a diferença”.

Sim. A servir aos outros com alegria e manter uma mentalidade positiva faz realmente a diferença.

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3 Comentários Comente
  1. Gerda Thurner #

    Minha querida sobrinha, quero agradecer as suas palavras queridas e sinceras sobre esta vida ocorrida. Também com dificuldades, mas muito entusiasmo e muita energia.
    Como a nr. 10 desta (linda) lista de filhos, sou grata pela sua vida, de ter nos dado a possibilidade de sermos pessoas independentes e quase sempre fortes e seguras neste mundo.
    Depois de 33 anos fora do Brasil, sou grata por ela ter tido a coragem de enfrentar um pais totalmente estranho que para mim depois de todo este tempo ainda é o meu pais, o meu lar e sempre vai ser a minha mae querida.
    Beijos Gerda

    janeiro 21, 2010
  2. Um ser e um bb #

    Omas são tudo isso mesmo e muito mais, pois conseguem transmitir estes genes de carinho para os seus descendentes. Gostaria muito de conhecê-la um dia (quem sabe?), embora suas palavras tenham o poder de trazê-la para perto de nós.

    PS: Fiquei emocionada, pois estou com muitas saudades da minha!

    janeiro 21, 2010
  3. Nana #

    Parabéns e muitas felicidades para sua linda Oma. Que bela e merecida homenagem!!!!
    Uma honra ser xará dela.
    Saúde e longa vida!!!!!
    Beijos,
    Nana

    janeiro 21, 2010

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